O menino que sabia das coisas (parte 1)

Era uma vez um garoto, um pequeno e solitário garoto que vivia em dois apartamentos, nos dois maiores prédios da cidade. Seus pais, divorciados, mantinham uma guerra fria pessoal, onde ambos disputavam a atenção um do outro através do poder aquisitivo. Enquanto isso, o menino crescia... Ele, é fato, não perguntava os motivos para estar vivo ou os porquês das silenciosas brigas entre as pessoas. Ele simplesmente vivia.

Um dia, ele decidiu subir até o teto de um dos prédios onde morava. Lá, ele sentia o vento frio tocar seu rosto enquanto ouvia os ecos de uma sociedade caótica aos seus pés. Mas, ele não percebia nem uma coisa, nem outra. Ele apenas vivia entre seus olhos azuis e a uma falta de vontade para tudo.

Naquele dia, o menino descobriu a beleza do vôo de objetos mortos e decidiu construir a alegria de todas as pessoas. Ele então pegou uma faca que trouxera entre outras poucas coisas e, com um golpe preciso apunhalou seu travesseiro. Aos poucos, o vento gélido que tocava sua pele imaculada, começou a levar as plumas para longe. Para bem longe.

Com um brilho acinzentado, reflexo da luz do sol poente, as plumas e penas dançaram a anarquia da liberdade. Subiam e desciam calidamente, como em uma dança dos apaixonados. O menino observou aquele movimento em silêncio. Percebeu, em um instante, que algumas penas estavam marcadas de vermelho. Era seu sangue. Ele não tinha dor à não ser a sensação de missão cumprida.

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