terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 27

A obsessão de alguns pela dor impalpável é algo lastimável. Enquanto deito-me na bonança dos dias, entre o fastio e os vícios, Tobias especula cada segundo na tentativa de escapar-se dos fantasmas do arrependimento que ele mesmo criou. Acostumei gastar algumas horas do meu dia com ele, contudo.

Mas, algo me inquieta ao olhar dentro daquelas esmeraldas em forma de olhos. A sanidade esta mediando um equilíbrio delicado dentro naquele rapaz. Queria sentir pena. Mas, de todas as marcas e buracos escavados em corpos que já vi, nada é mais espantoso e evasivo que aqueles olhos verdes. Mesmo assim, não sinto repulsa.

Os dias correm rápidos por aqui desde que Tobias chegou.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Minha mestra

Não acredite no equilíbrio. Simplesmente porque ele não existe! Pode ser que haja um conflito de tensões divergentes que se findam na sensação de equidade, contudo, como já dito, isso seria apenas uma sensação.

Mesmo em um jogo, onde você tem o mesmo número de peças ou cartas que seu adversário e que as regras sejam aplicadas da mesma forma para todos os lado, ou seja, um terreno limpo de qualquer vantagem: isso é Ilusão!

Haverá sempre aquele que tem mais experiência que você, ou menos pretensão. Há quem sonhe e é petulantemente abusado! Há quem reze ou quem chore. Há quem seja o contrário ou tudo isso e tantas outras contradições.

Pois, em um jogo, não há ponto zero. Não se descarta as memórias ou as promessas não cumpridas. Enquanto hoje, você se sente o dono do mundo, amanhã eu sou o coringa que te joga pelo avesso. Psicologicamente.

Mas, coabitar com a finitude não é de todo ruim. Pode impulsionar. Pode ser brinquedo e pode-se manipular ao seu gosto. Às vezes funciona. Às vezes não. E nesta gincana de viver ganha mais quem sabe perder.

No final, somos egos inflamados, de ideologias utópicas e impraticáveis. Hoje desacredito que a bondade seja algo fácil de ver. Desacredito conhecer pessoas genuinamente generosas e despretensiosas.

Afinal, isso é um jogo. Uma brincadeira de viver. Enquanto minhas cores servirem para colorir o teu quintal, eu estarei lá, depois disso... enfim... nesse jogo nunca já ponto zero. Um ponto de equidade.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 26

Nunca pensei que o mundo fosse um lugar grande. Mas, eu ainda achava que haveriam lugares anônimos o suficiente para só cruzarmos com olhos nunca vistos antes. Porém, momentos como este que contarei fazem com que eu me perceba tão insolente e ingênuo. Naquela tarde banal, enquanto tomava um café banal, em um lugar banal, eu escrevia neste caderno. Eis que avisto um rapaz dirigindo-se à minha direção. Entendi as nuanças de Manet neste instante. Mas, a imagem a se formar não conferia com as paisagens bucólicas do pintor.

Estou em Paris. O que deveria eu esperar? Nunca mais ver os rostos ou os fantasmas de além-mar? Paris é a casa de formação para os burgueses de lá! Quando não, é a casa de campo, o jardim de inverno ou qualquer outra banalidade! Quantas banalidades! Há muito tempo não sentia o meu coração acelerar. Lá estava ele... tão real! Não soube por um raro momento se levantava e corria naquela direção ou para uma oposta. Permaneci sentado. Plácido.

Ele sentou-se na cadeira à minha frente. Pediu um chá. O silêncio entre nós não era perturbado nem pelo movimento das ruas. Foi quando percebi que discretamente uma lágrima escapava daquele olho verde. Nunca imaginei que uma lágrima no rosto de Tobias o transformaria em uma espécie de divindade esculpida em marfim. Fantástico era o brilho daquela tristeza. Pouco tempo e já entendia que ele simplesmente sabia os motivos de eu ter entrado para a milícia do governo. Mas ele nunca se perdoaria por ter abandonado seus colegas. Por isso, a lágrima límpida...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Um dia...




quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 25

Termino essa semana sem quaisquer novas. Essa terra, de tão atrativa, torna-se enfadonha e previsível. Até as cores do céu são previsíveis... Invejo os poetas, por serem capazes de fantasiar de modo tão convincente. Pior! São capazes de criar! São deuses proscritos! Divirto-me mais com essas folhas e letras em preto do que com as ideologias da mocidade. Será que sou um velho em corpo maculado? Sinto-me que devo parar de escrever, pois algo insano em minhas palavras começa a ganhar contorno.

É estranho perceber que percebo os mecanismos de modo diferente. E, por saber que é diferente, torno-me diferente também no modo de agir e guiar as convenções sociais. Cada dia que passa, sinto-me como que os meses passados foram apenas sonhos bizarros de realidade. Por aqui, nem notícias nos jornais sobre o lado de lá se lê. Um mundo a parte... terrinha de

[este texto parece ter sido interrompido bruscamente. Adiantamos que os motivos para tal afirmação poderão ser facilmente percebidos com a leitura da próxima escrita]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Ao Espelho

Você vê o que causa a dor da não consumação. Você sabe que tua aflição, com o passar dos meses e anos, transforma-se num tênue desconforto. Quase imperceptível. O corpo sabe se proteger das dores. Ele cria armadilhas para si mesmo. Ele se afasta dos espelhos para não enxergar a ferida exposta. As feridas são ungidas em perfumes ralos, para escapar dos odores da insatisfação.

Mas, se uma foto, uma palavra, um gesto ou um mísero pensamento que seja, tocar o teu dia por um segundo, perceberá então que mesmo nada sendo como um dia fora, mantém ainda em ti o desejo por um gesto de carinho. Então, desfalece um momento. Contêm as lágrimas. Veste qualquer coisa e se vai.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 24

Ao chegar à Paris deixei para os quinhões do além mar a idéia de liberdade. Tampouco reconheço o significado do amor, como algo palpável. Igualdade... é tão irreal que recuso-me ousar firmar algo, mesmo que seja o contrário do real. Paradoxalmente minha cama fica na terra-mãe dessas palavras... Palavras, que, por sua vez, são cantos na boemia dos bordeis infestados de gente e de sexo.

Posso dizer, contudo, que hoje conheço algumas pessoas que atravessaram a barreira da mediocridade, mesmo sendo eles quase zumbis de histórias encantadas: histórias de amor. Mas nada mais agradável como companhia para beber os dias e as noites do que pessoas e suas histórias... Demonstro que cada vontade vale menos que as taças de vinhos que tomamos, e brindamos.

Eles me chamam de “amer” nas noites de boemia... Nada mais coerente, contudo! Até que gostei, por um segundo... afinal para alguns quando percebem que não existe “aimer” só lhes restam o “amer”... No fundo, sou o espelho da ilusão de cada um, sinto apenas por somente do lado de cá mostrar o que se é... não um reflexo fajuto.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

26

A sensação, ao fechar a porta, era quase delinqüente. O furor da rua se calava instantaneamente e os cachorros não latiam mais. Deleitei-me nos segundos seguintes ao tirar meu calçado calmamente. Senti o cheiro da minha casa, mesmo confundindo-o com o cheiro da terra molhada do lado de fora.

Cheguei um dia a pensar que minha história demoraria apenas 16 anos. Hoje, a casa dos 20 ultrapassa a alvorada do meio e dedilha em mim mesmo a sensação da jovialidade quase esquecida. Posso dizer que sou os cacos de tantas histórias, sendo que hoje administro um quinhão delas, sempre me perdendo, mesclando-me à coisas insanas e alheias à mim.

Mas, a delicia ao abrigar-me no silêncio desses segundos só não é maior que a sensação de aconchego espalhado sobre minha cama.

Essa mensagem talvez não faça sentido... de fato, não é para ter sentido, pois, por um momento esqueço-me dos amores impossíveis, das mazelas do mundo e da incoerência... Apenas deleito-me em um ato explicitamente egoísta no gesto do meu corpo estender-se entre lençóis limpos.

Adormeço.
Segundos...
Acordo.
E o mundo volta a ser o que era.
Dentro de mim...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 23

Entre as grossas e seculares paredes, divido meus dias entre os afazeres da universidade e os poucos livros que ainda suporto ler. Debruço-me mais nas memórias que colho durante as visitas ao Louvre, enquanto meu colega de quarto baba em seu travesseiro. Não me preocupo mais onde guardar este meu caderno, pois cá, tenho a ignorância alheia a meu favor, é apenas uma questão de manter a escrita em minha língua vernácula.

Lembrei-me do gosto das francesas em algumas das noites que antecederam esta. Tão delicadas e pequenas... alvas, de sabor levemente azedo e adocicado. Tão versáteis e fáceis! Fúteis! Finjo-me divertir enquanto elas fingem me amar. No fundo, é tão justo quanto a liberdade: ambas são doces encargos de falsas idéias, ou idéias impossíveis. Mas, enquanto respirarem e carregarem o fugaz prazer do sexo farto, hão de sentir a paixão furtiva e o gesto de uma ilusão qualquer.

De todo modo, são essas ações que fazem do meu tempo ser menos que as badaladas da exausta Notre Dame.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Parte de mim


Esta noite um romântico morreu
Mas a chuva que caia nada mais era do
que o reflexo de um dia quente do verão.
Nem mesmo as gostas sabem que nesta
noite morreu um romântico. Silenciosamente.
As pessoas contam os segundos em passos rápidos
para não sentir o toque da chuva.
Elas não sentem nada. Ninguém.

Esta noite um romântico morreu
Encontrara a resposta no silêncio absoluto.
A relatividade da vida se vinda para sempre.
O corpo, estendido sobre livros mofados e alguns rascunhos,
desintegra-se calmamente.
Como se toda a pressa e a correria dos sonhos
tornar-se-iam em virtudes superadas.
Não há mais paixão. Acabou.

Esta noite um romântico morreu
Estalado nas contas de poeira e odores da verdade
jaz talvez alguém insignificante.
Os copos de juventude em pele plácida
conservam ainda a pureza do sexo e dos desejos.
Parece intocado pela atitude cruel do tempo e dos acasos,
por poucas histórias, contudo.
A vida desvanece. Esfria.

Esta noite um romântico morreu
As próximas noites serão contos inexistentes,
de acidentes interrompidos e calmaria.
Não mais qualquer tormenta.
Não há mais tempo também. Não há mais nada.
Acaba a vida como um suntuoso show de um lado.
As respostas não existem.
Os momentos continuam...

.
.
.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 22

Os dias, sob este navio são meros acasos do tempo relativo. Seja pelo sol, ou pelo calor, ou seja pelo gosto amargo do whisky amanhecido entre meus lábios. Ironicamente, saio daquilo que muitos classificariam como o inferno para este navio de luxo: um paraíso a flutuar, como diz o anúncio. A diferença que vejo entre os lugares são apenas conveniências frágeis.

Os charutos fumados neste salão são os mesmos fumados por aqueles que mandavam matar. Uma viagem de silêncio. De jantares sozinhos. De poucos escritos. Poucas conversas. Eu mudei ou o mundo não se encaixa mais em mim? Sou eu o cego ou vivo num mundo onde o único que enxerga sou eu?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O Diário de Teegoh – Semana 21

O cheiro do mar salgado costumava enjoar-me. Mas hoje, custo entender essa minha ausência de qualquer sensação. Antes, é verdade, não era eu o ser mais emotivo dessa terra, mas me restava a inconformidade de um jovem de tenra idade. Hoje, apesar do meu rosto não guardar as marcas dos meus dias, devo ser mais velho que um ancião.

Devo ser mais amargo que fruta apodrecida, esquecida na caixa. Ao sair do campo de Hades não tive que enfrentar nenhum Cérbero, apenas a minha consciência... Morrera ali. Com qualquer resquício de humanidade. Hoje sou um anjo ou um arauto de coisa qualquer, de coisa de ninguém.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Espelho Nosso

De cima não se vê os detalhes, não se vê o brilho dos olhos, e não sente o calor de um bom abraço. Do alto só se tem a companhia do passado das estrelas, no seu gélido brilho. Solitário é esta vida, pois o que é, não é: fora um dia. É explosão de vida que hoje nada mais é do que lembranças plácidas, cinzas...

De cima, você tem todo o tempo de refletir, pois não há mais nada com o que se ocupar. Não há ninguém, pois todos estão cá abaixo, errando as suas vidas curtas e vis. Você não vê nossas mãos sujas de esperanças, enquanto brincamos de pequenos conquistadores dos nossos medos.

De cima não se toca o meu corpo e não percebe os meus gestos. Você conquistou tudo para não ter nada além do silêncio. Do alto, não há meios de você sentir o sabor dos meus lábios, em beijos demorados, o que tem são lembranças não do que foi, mas do que podia ter sido.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O Diário de Teegoh – Semana 20

Não há mais motivos para continuar aqui. É fato. Não há esquina ou corredor desses templos de carnificina que eu não estive. Minha vida tornou-se um clichê do personagem duplo, e isso não é o meu jeito. Não por conveniência ou qualquer outra fator social. Tive que olhar para os olhos da desgraça para descobrir-me.

Acato a decisão da minha mãe. Parto amanhã, à surdina do crepúsculo. Adeus terra de ninguém. Não sentirei saudades dessa terra banhada de sangue de inocentes sonhadores tolos. Creio que ao acordar no verão parisiense o sol apenas enaltecerá os tolos que acreditam no amor: que felizes vivem.

Não entendo mais os motivos de ficar ou de partir. O que antes era busca agora é total lugar vazio, mas não um lugar onde serviria para completá-lo com algo... apenas um vácuo, inerte e inodoro de vida morta.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Resposta à Solidão


Se, por acaso, você acordar com uma vontade insólita de esquivar-se do mundo e ter consigo apenas a sensação de que não há mais motivo, vontade ou qualquer outra coisa;

Se te faltarem palavras, ou se elas parecerem obsoletas para metamorfosearem-se em sentimentos escritos, ou se nem os desnudados assaltos de cólera lhe tiram para dançar;

Se não ti sobrarem vontades de voltar, de ver as brumas daquelas terras ou ouvir um som qualquer que só naquele mundo é pintado como em um quadro antigo de todas as cores;

Se, por fim, carrega em ti apenas uma esperança, mas que escapa dos teus dedos e voa com este vento de dezembro, o caminho mais curto é se jogar deste alto lugar...

E buscar a tua resposta à solidão.

 

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