Enquanto pequeno, lá entre o ideal principesco e as tendências profanas, percebia paulatinamente os prazeres de uma terceira margem. Os corrimãos que davam suporte ao cotidiano etéreo, também me asseguravam a possibilidade de sonhar. Sonhos que pouco se preocupavam com a concretização dos anseios, pois eles satisfaziam a necessidade de sentir-me capaz.
Mas, hora como cavalos a galopar ou uma pena ao ar, as escolhas deram face aos meus sentimentos e os sonhos confundiam os crepúsculos das ilusões. O corpo abundava os sinais das possibilidades, enquanto caracóis de pelos cresciam a insinuar um comprometimento com o tempo.
Não foi em um amanhecer, nem contava os contos dos segundos... simplesmente, foi se formando, pois assim, era certo. E então, aconteceu. Percebi minha escolha em poder escolher. Assumir a dádiva do livre arbítrio. Ser livre, em plenitude. Em êxtase me encontrei.
Mas, a escolha é apenas uma peça do teu quebra cabeça. A peça mestra, contudo não única. Montar o restante do quadro é o caminho escolhido e necessário. Para perceber então que outras peças não mais se encaixam.
Uma busca pelas possibilidades se consolida. A troca faz o quadro ganhar corpo, cada vez mais personalizado. Contudo, ele nunca se completará. Não é essa a intenção. No final, peças faltarão, outras tentarão se encaixar em vão, e alguns serão adaptadas. Como tudo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Na esquina do tempo e encontros - Charles Dickens
Foge dos cruéis caminhos da realidade de outrora e cria para si e para o mundo um espaço que, através da fantasia, comenta as convenções sociais. É um menino. Insatisfeito. Busca nas esquinas das possibilidades, tratar os sonhos do reencontro.
E assim, retratos de reconciliações formam. O jovem e o velho. O mundo e o avanço. A monarquia e a plebe. São os laços entre aquilo que os preenchem, uns aos outros. Cabe a nós, donos de mais de 100 anos de tentativas, encontrar as fartas vertentes de um cotidiano de sentimentos passados.
Como uma dança de poderes. Você é Pip. Você se perde não por conta das brumas do inverno, mas pela moralidade vitoriana de ontem e de hoje. Perde a ingenuidade que um dia lhe guiou para enfrentar o medo e oferecer o que comer ao mostro que lhe era o mais atemorizante. Você viu o homem que se vestiu de mostro cruel - sociedade.
Vá! Sobreviva a tudo isso, enfim! Atrás das máscaras você talvez não encontre um pai, mas um amigo. Se não, com grande esperança, um retrato de homem.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
Presente de aniversário
Lá está! Plácido, em seus furtivos pensamentos de uma vida inteira de juventude. Um corpo, que como o meu, representa a força da primavera. Inebriados por luz cada canto que lhe é possível, sem deixar de ostentar a sombra, numa pose de certo relaxamento, de certa franqueza de ser quem é.
Ele se despe das vergonhas e deixa a inocência para trás, assim como o lençol branco. São apenas lembranças do passado infantil. O presente nunca foi tão prazeroso.
Da cadeira, antes o local de segurança, como nos braços de uma mãe, precisa apenas de uma ponta do encosto, pois as pernas dele são capazes de sustentar sem esforço e o levar para onde bem queria ir.
É livre! Nas virtudes e temperanças, mas lá está por gosto e escolha... ou comodidade. É jovem, sem nenhuma vulnerabilidade, contudo esconde as partes intimas, não por vergonha ou zelo com os moralistas, pois na verdade, lá posa a valentia do desejo!
Juventude viril! Que atenta no desejo e no segredo, uma busca de quem o quer, mas que alcançará apenas alquilo que o escapa, entre a virilidade em pelos que insistem em fugir do pano que guarda a polpa de ser homem.
Contudo, de todo não há como enganar. Não se trata do retrato de Dorian Gray, mas sim de um rapaz anônimo de história, pois de outro modo não há como ser um desejo atemporal. Desejo somente percebido e vivenciado, pois se compreende no intimo a fugacidade da vida.
Lá, entre os traços que compõe um rosto atípico, encontram-se os sinais do outono, trazendo as brumas e arestas que as frutas terão um gosto diferente. Assim como eu. Mas, como sempre, desejável.
Ele se despe das vergonhas e deixa a inocência para trás, assim como o lençol branco. São apenas lembranças do passado infantil. O presente nunca foi tão prazeroso.
Da cadeira, antes o local de segurança, como nos braços de uma mãe, precisa apenas de uma ponta do encosto, pois as pernas dele são capazes de sustentar sem esforço e o levar para onde bem queria ir.
É livre! Nas virtudes e temperanças, mas lá está por gosto e escolha... ou comodidade. É jovem, sem nenhuma vulnerabilidade, contudo esconde as partes intimas, não por vergonha ou zelo com os moralistas, pois na verdade, lá posa a valentia do desejo!
Juventude viril! Que atenta no desejo e no segredo, uma busca de quem o quer, mas que alcançará apenas alquilo que o escapa, entre a virilidade em pelos que insistem em fugir do pano que guarda a polpa de ser homem.
Contudo, de todo não há como enganar. Não se trata do retrato de Dorian Gray, mas sim de um rapaz anônimo de história, pois de outro modo não há como ser um desejo atemporal. Desejo somente percebido e vivenciado, pois se compreende no intimo a fugacidade da vida.
Lá, entre os traços que compõe um rosto atípico, encontram-se os sinais do outono, trazendo as brumas e arestas que as frutas terão um gosto diferente. Assim como eu. Mas, como sempre, desejável.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O pequeno banquete
O dia pode não ter sido como imaginei. Passou.
Você não provou do pequeno banquete que fiz
Você nem sequer sentou-se a mesa comigo.
O dia foi bom. Fiz minhas confissões às horas
enquanto pensava nos teus “sim” e sorrisos
estive, se calhar, num estado de felicidade.
O dia, tingido no laranja de verão esvanece
E a porta canta no tom do caos inesperado
Somente para me avisar que você lá está.
Passou. Os olhos se perderam em vasta face.
Não vi segredo, desprezo. Não vi nada.
Lá, entre um sorriso dissimulado, nada havia!
Sozinho fiquei. Novamente.
O dia pode não ter sido como imaginei. Passou.
Mas se aqui se espera um ‘mas’, não poderia ser.
Contento-me com o ‘se’... Se foi. Para sempre.
Você não provou do pequeno banquete que fiz
Você nem sequer sentou-se a mesa comigo.
O dia foi bom. Fiz minhas confissões às horas
enquanto pensava nos teus “sim” e sorrisos
estive, se calhar, num estado de felicidade.
O dia, tingido no laranja de verão esvanece
E a porta canta no tom do caos inesperado
Somente para me avisar que você lá está.
Passou. Os olhos se perderam em vasta face.
Não vi segredo, desprezo. Não vi nada.
Lá, entre um sorriso dissimulado, nada havia!
Sozinho fiquei. Novamente.
O dia pode não ter sido como imaginei. Passou.
Mas se aqui se espera um ‘mas’, não poderia ser.
Contento-me com o ‘se’... Se foi. Para sempre.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Segredo de menino
Qual é a maior torre que consigo morar? Mas tem que ser um lugar onde eu possa existir sem tempo, sem dor... Brincar entre os segundos inexistentes até não mais sentir as pernas e enfim esperar a saudade apontar-se no horizonte. Mas lá, eu não tenho tranças, cortas, portas, tampouco janelas... a saudade, tampouco a consciência podem entrar e no horizonte que eu as vi, eu as vejo desvanecer.
Sou apenas eu. E, frente a todas minhas virtudes descubro os meus maiores defeitos. Eu brinco com os meus defeitos. Imaturamente. Afinal, pouco importa virtudes e defeitos, saudades, vontades e desejos, pois cá eu me protejo de mim mesmo.
Afinal, reservo o claustrofóbico cômodo da torre para aquilo que desejo extirpar de mim, por isso a torre mais alta não fica vigiando lado qualquer do meu castelo de cristal. Não há lugar para ser só eu no meu castelo, pois lá abrigo a solidão e outros três fantasmas.
Já na torre esqueço-me de ser eu e aos poucos me afogo na ausência de consciência. Aos poucos destruo qualquer resquício de amor possível para um sonhador.
Esvaneço entre as paredes do vazio.
Morro.
Respiro.
O que antes eram paredes, fibras de algo indescritível tornam-se entorse despertar aquilo que sinto entre minhas pernas. Aos poucos sinto o calor da vida encher meu ainda sadio vazo com a pena de sentir mil agulhas fenderem cada partícula da minha consciência.
Por fim, percebo que a torre virou excremento que me matou, alimentou e fez com que revivesse, mas diferentemente de uma borboleta, que conclui o ciclo da vida de modo poético, retorno a minha integridade não mais como um menino, mas sim como um homem.
Sou apenas eu. E, frente a todas minhas virtudes descubro os meus maiores defeitos. Eu brinco com os meus defeitos. Imaturamente. Afinal, pouco importa virtudes e defeitos, saudades, vontades e desejos, pois cá eu me protejo de mim mesmo.
Afinal, reservo o claustrofóbico cômodo da torre para aquilo que desejo extirpar de mim, por isso a torre mais alta não fica vigiando lado qualquer do meu castelo de cristal. Não há lugar para ser só eu no meu castelo, pois lá abrigo a solidão e outros três fantasmas.
Já na torre esqueço-me de ser eu e aos poucos me afogo na ausência de consciência. Aos poucos destruo qualquer resquício de amor possível para um sonhador.
Esvaneço entre as paredes do vazio.
Morro.
Respiro.
O que antes eram paredes, fibras de algo indescritível tornam-se entorse despertar aquilo que sinto entre minhas pernas. Aos poucos sinto o calor da vida encher meu ainda sadio vazo com a pena de sentir mil agulhas fenderem cada partícula da minha consciência.
Por fim, percebo que a torre virou excremento que me matou, alimentou e fez com que revivesse, mas diferentemente de uma borboleta, que conclui o ciclo da vida de modo poético, retorno a minha integridade não mais como um menino, mas sim como um homem.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O Arquiteto do impossível ou a explicação do silêncio
Porque criamos personagens? É certo que em cada “ambiente” nos vestimos conforme o protocolo. Muitas vezes, porém é necessário escolher qual papel interpretar e, acima de tudo, ser gentil e polido com todos. Assim sendo você ganha o ilusório tom de respeito e afeição dos pares.
É um bocado difícil admitir, mas o meu orgulho neste instante está abalado e, portanto, sou capaz de escrever sem remorso: tenho inveja de praticamente tudo! Talvez o meu maior esforço em fazer bem feito o que faço não consiste em cumprir um papel social, mas sobretudo chamar a atenção de algumas pessoas que são escolhidas por mim.
O curioso é que o prazer em lutar vem acompanhado sempre pelo sabor amargo da derrota. Pois, no fechar das cortinas, independentemente do quão bem sucedido tenha sido o espetáculo, a sensação de falsidade sobressai como uma crítica arrasadora.
São missões impossíveis por conta da simples incompatibilidade. É como querer desenhar sem ter nenhum tipo de material. Mas, na minha mente é possível! Eu pretensiosamente manipulo os elementos até ser capaz de chegar ao ponto onde percebo que o fiz nada significa. Quebro minhas esperanças ao ver que os acasos dos momentos são favoráveis aos outros, enquanto o arquiteto de sonhos fica com a dedilhar cada centímetro dos seus projetos na intenção de descobrir onde foi que errou.
E assim, a sensação que prevalece é a angustia da incompletude. Já amei tanta gente em silêncio que hoje perco horas a amansar a dor de lutas não vencidas. Talvez o meu erro consista em encarar o mundo como um grande desafio e eu sendo o trapaceiro, busco os caminhos convenientes e rápidos.
Afinal, quem sou eu? São tantos “eu” que me perco. O jogo inteligente e virtuoso que compõe os meus dias são nada além que máscaras de um primata que busca inconstantemente saciar o desejo pelo imprevisto. Mas sazonalmente me fecho para tentar recuperar as forças.
Nestes instantes, perco amigos, ideais, virtudes e dignidade. Perco o certo o errado e os parâmetros de qualquer um. Perco sonhos e o amor sincero. Perco a vida não vivida, sobretudo!
E o que me resta? Um tempo vazio para ser ocupado com uma nova busca impossível! A diferença é que depois de eu percorrer o caminho de tijolos dourado não me deparo com o castelo do feiticeiro. Apenas volto para o ponto de origem onde guardado está um menino que na adolescência encobriu um amor em forma de amizade por 7x7 anos.
Seria hoje o meu dinamismo um reflexo cíclico da formação de mim? Seria eu o salvador, companheiro, ombro e intelectual destituído de humanidade incumbido de figurar uma vida? Os personagens das ficções são tão fascinantes pois suas complexidades são sempre limitadas às páginas escritas. Transformo-me em um aos poucos. Como um ser que dispensa a vida para viver eternamente na história.
Pretensiosamente, não se pede os holofotes mas sim um momento de plena vida.
sábado, 13 de agosto de 2011
Sobre um galdério pensante
Ao amor que se distrai nas horas que menos devia, entrego a minha alma! Os anos observam cálidos, entre ombreiras e chapéus, os erros cotidianos.Porém não me julga nem ao menos uma só palavra: Apenas observam!
A inquietação, afinal, não é nada além de momentos passageiros: Sempre desassociados de qualquer virtude ou contentamento. Mas, como num banquete de sinceridade, tais momentos atenuam o sabor da solidão de ser só um. Torna-se, assim, um espelho cru: mostrando-me abusadamente nu, por fora, dentro e invertido!
Ao amor que se distrai nas horas que menos devia entrego a minha alma! Pois não há nem se quer um varão que não a possuíra por uma noite! Contudo, deixaram-me apenas um nó em tecidos e poucas moedas.
Torno-me, assim, o ser destituído de mundo: um ser volante que não mais parece se importar se está entre braços tênues, como num insólito aconchego, ou jogado em pensamentos. Afinal, se ontem fui desejado, hoje sou escória... Se ontem fui verdade, hoje sou anarquia.
Ao amor que se distrai nas horas que menos devia entrego a minha alma! As tardes doces, inventadas entre os muros de um castelo, desfalece ao mesmo tempo as chagas em sangue e dor anunciam o fim de mim.
E assim morre a triste consciência que um dia julgou-se ser santa. E entre as manchas do que resta de um lençol nasce soberba, a fênix: a figura de um inebriado amor transfigurado em compaixão de mim mesmo. E, para suprir a insaciável necessidade de afirmação intelectual dispo-me de todas as coragens para entregar-me a sorte do mundo.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
O corredor das estações
Fosse o mundo meu, e um pouco de alegria
depositaria em cada alma solitária
E então, os adormecidos sonhos de
outrora despertar-se-iam ao amanhecer
Acompanhando a alvorada dos homens
A festa do jubileu, a preparar estaríamos,
na primavera da era imortal
Cujo amor, plantado no inferno
da mais profunda melancolia, floresce
E os vasos varonis preparam-se para o coito
Sim! É a aurora sob os sons das trombetas
a anunciar o sabor do verão
Clama na astucia jovial o gesto dos beijos livres
a dançar entre os lábios
Já não é sem tempo, e a vida, enfim, é plena!
Mas o silencioso tom alaranjado
tinge os contornos dos nus ao céu
Como um traquinas a desafiar
a jovialidade efêmera, cai-nos o outono.
E, sem mais delonga, rouba-nos a precisão dos atos.
Fosse o mundo meu, e um pouco de alegria
depositaria em cada alma solitária
Pois reconhecer as estações da vida
não nos torna responsáveis pela finitude
Tampouco somos donos do desejo de jovem ser...
Para sempre.
terça-feira, 24 de maio de 2011
O fio da memória e os cabelos teus
O mais sádico dos prazeres configura-se naquilo que percorre os meus pensamentos. De tudo, ou cada parte – se-pa-ra-da-mente – sou o que restou da incompletude dos sonhos de outrora e, devo admitir, é uma tarefa homérica deixar o castelo de cristal pois não consigo olhar para trás e deixar de lembrar os louros cabelos do meu primeiro amor a cambalear maliciosamente na ingenuidade da puberdade. Amor sete vezes amor. Sete anos construindo tijolo por tijolo desde castelo, para então cá repousar num sono profundo o precioso e imaculado vaso de mim mesmo. Deste modo, preservei-me intocado dos prazeres e dos gestos mortais, protegido pelas chaves da esperança de um final feliz.
Com o tempo, os fulgores dos fios de seda que compunham os motivos da minha missão tornaram-se rotineiros marrons. Mas, mesmo assim, percebi que a beleza que eu via antes, estava a minha espera nos caminhos do prazer. Eu estava preparado para receber o sabor do delírio contigo. Você não, contudo.
Hoje a confluência de uma alma perdida caminha na explosão do branco e do tempo. Cego sim! Enxergo apenas as nuances do passado nas escancaradas portas da perversa juventude, sedenta por desafiar as libidos deste ancião que voltou da grande guerra vencedor, mas ainda sofre a dor das causas impossíveis.
Além disso, admito que pouco sei sobre as regras dos jogos cotidianos do olhar. Meu ímpeto pela ternura torna-me um fugaz admirador das possibilidades. E são a elas que me agarro e me destruo lentamente, afinal, alimento-me da paixão pelas causas do impossível e, como um leão faminto, nem sempre a tempo de ser sorrateiro. Mas, se neste momento escoro-me minhas palavras na ausência de som, confesso que das coisas que ganhei só consigo levar o amargo desdém daquilo que nunca tive a chance de se quer tentar conquistar.
O tempo me causa a cegueira do hoje em forma de paradoxo: não reconheço a dedicação do meu amor nos traços que vejo hoje, mas amo infinitamente você de outrora. Amor, cuja experiência modifica a alma e é capaz de mover obstáculos da percepção, mas estacionou-se dentro de mim na imagem da juventude perdida. Perdido sinto-me quando os sentimentos tornam-se sinas dentro de mim. Perdido sinto-me por não conseguir nesta noite ler essa página de maneira nostálgica apenas. Mas amanhã eu o silêncio de você voltará a reinar e quem sabe assim ficará por um bom tempo. Como disse, gosto de buscar as causas impossíveis.
terça-feira, 17 de maio de 2011
O Diário de Teegoh – Semana 36
A dança desta noite foi cerceada pelas conversas triviais. As pessoas, nessa época do ano, têm o curioso costume de lamentar o verão passado. Não consigo imaginar ninguém daquele circulo a cavalgar, nem por um instante. Dolores Fleur, entre suas ancas que mais parecem montanhas de chantilly sequer conseguiria guiar um potro. Coitada. Porém, todos devaneiam sobre as maravilhas das férias e o contingente embutido desta época.
De todo modo, a irmã de Fleur, a bruxa da semana passada, não para de me indagar certa curiosidade. Talvez por conta do pão de mel em formato de casa, talvez pelo olhar incisivo... Contudo, confio meu palpite na simples constatação que as pessoas daqui não são interessantes e ela pôde ter me surpreendido, justamente em um agudo momento de abstinência intelectual.
Devo esperar mais um pouco nessa festa. Sorte é poder contar com meu caderno, mas veja, tal senhor insolente está olhando para mim enquanto fala qualquer coisa inútil para o outro, de vestimenta engraçada! Queria poder agora apresentar a feição de ambos ao verem eu segurar minhas partes baixas e apontar para eles! Sorte a minha ter uma mãe tão exímia a ponto de me poupar tamanho divertimento! Amanhã, aliás, minha noiva virá e mais tempo perdido terei.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
As razões do inexplicável
De todas as contradições e absurdos há uma, em especial, que me faz escapar as correlações do certo moral e do libertino sabor do prazer. A insustentável leveza do ser torna-se um paradigma subjetivo que perpassa pelos absurdos de um exemplo, contudo, diluído no cotidiano dos compromissos, não fica longe de nós a evidência que o caos do vazio pode proporcionar a dor de não ser.
Liberdade tão bem cantada nas melodias novicentistas que ainda ecoam em nossa mente como um propósito possível... Embriaga, porém, a capacidade lógica de um direcionamento mental com as torpes volúpias chamadas de amor, paixão e desejo. Liberdade, a tal, que busca prender-se nas fivelas de uma história qualquer. História inventada entre capítulos retos. Onde, quando o desejo é ascendido por um instante, e concedido, resulta em um laço (ou algema) entre nossas vidas e a do outro.
É um ciclo vicioso ou virtuoso? Erramos ou aprendemos? Não há como ser duas coisas! Mas somos! Somos a leveza de uma alma imortal encarcerada num vaso temporal e assim passamos a comparar nossas glórias inventadas. Louvamos outras glórias inventadas também! Afinal, é um sobre um norte que caminhamos, mesmo quando ainda não sabemos andar.
Lamento. Hoje amo, mas não sei o que isso possa vir a ser. Hoje desisto, mesmo sabendo que vou te seguir. Hoje espero, mas estou correndo sem parar. Hoje morro, pois viver não é uma escolha. É uma obrigação.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Carta de amizade
Se com o gesto pode mudar o mundo, imagine o que faz o tal amor ao invadir um desprevenido mortal? Mas não se assuste. A dor é tão fiel ao sentimento que nem a certeza da impossibilidade faz com que a ilusão se desvaneça. Jeito estranho de ser, este que nos traz a vida como um gargalo de contradições. A frágil ilusão briga com a plenitude dos fatos e ainda sai vitoriosa, “mesmo que com a dor de mil facas a cada passo”.
É vivido e plácido. É viril e indistinto. É a certeza do não, mas com o gosto de sim. São sorrisos criados no rosto dele através do teu pensamento. Esses sorrisos não são pra ti, e você sabe disso. Ele sabe onde fica tua casa, mas não sabe onde você mora, onde vive teus distintos ases.
No fundo, meu caro, é evidente que não há nenhum espelho de palavras capazes de refletir o ego dos teus castelos. Você tem consciência da gentil e cálida alma que tem, mas conhece bem as taças que ele usa para degustar os mesmos vinhos teus, as mesmas taras, os mesmos desejos. Indistintos desejos guardados pelas chaves do tártaro, para que, calmamente, findam-se em desgosto. Depois... Depois o sentimento se cala, mas ele nunca morre. Nunca.
sábado, 23 de abril de 2011
sobre envelhecer
Quero beber um copo deste teu lubridioso licor.
Assim eu entenderei um pouco dos cortados sinais,
Que sondam as cortinas dos meus sentimentos
mas que sucumbem entre tuas criadas neblinas.
Os teus dentes de lata sorriem para mim.
Os tortos gestos de um corpo maculado
Transam com as tentações do velho senhor
Para a amargura buscar conforto em mim
São tantas horas rodadas ao terno gesto do acaso
Que me pergunto o quanto disso tudo é invenção
Pois não há de ser certo querer sentir o gosto
E apenas o vazio preencher os meus espaços
Até não chegar uma resposta fabricada
abro os livros que nunca foram escritos
e cozinho os sonhos alheios, egoista-mente
nesta masturbação da solidão sem fim.
quinta-feira, 24 de março de 2011
O conto da xícara
Este texto é dedicado ao anônimo,
cujas palavras me instigaram a escrever em pleno furacão.
Um dia desses, me deparei com a triste vida das xícaras. Entristeci ao perceber todos os humores pelos quais as submetem. Afinal, não há mais triste insolência que despejar as mágoas frias, em beijos frios de cálidos lábios, em uma noite chuvosa.
Elas, que carregam cuidadosamente o afago da solidão, são submetidas as mais duras penas que um homem foi capaz de inventar. E, como se não bastasse, o que resta é o consolo do pires que mal cabe em sua própria melancolia ao espalhar-se entre migalhas velhas do Sr. pão-de-mel.
Invejosos são os talheres, cuja soberba em serem tão maleáveis os fazem bajuladores profissionais de quase todas as horas. Eles, em todos os tons prateados, debruçam-se nas rapsódias dos gostos e gestos. Mal dão conta de suas vidas, tampouco percebem o que os cercam.
Ninguém seria capaz de ouvir o cálido suspiro da xícara, que em plena reflexão sobre a natureza da nostalgia, relembra quando era apenas um pedaço barro perdido da anarquia da escuridão. Ironicamente, encontra-se na escuridão outra vez, mas, em plena e questionável ordem das coisas.
Não lhe resta nada além de rezar para que nenhum beberrão a derrube. Afinal, ninguém choraria ao ver uma xícara espedaçada no chão. Mas, todos sentiriam a falta do seu infinito potencial por ser o jarro do prazer. Contudo, substituível ela é. E assim, será.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
O Diário de Teegoh – Semana 35
O certo se desfaz nas entrelinhas das monótonas festas parisienses. Enquanto os festejos formam-se por tolos e para tolos que se arraigam as danças. E Casais se formam. E Casais se casam. E a dança continua. Incessantemente. A semana se estendeu com as pessoas visitando-nos na casa de campo que eu não imaginava à nossa família pertencer. Estou ainda nos arredores de Paris, mas o habitual cheiro da merda dos porcos me entendia, pois é igual em qualquer lugar.
Contudo, não é todo dia que recebemos a visita de uma bruxa. Mas que minhas letras soam miúdas, pois a inquisição passou, mas a iminência da guerra ainda prospera por todo canto. Ela falou-nos sobre a culpa. Em tom firme e delicado ao mesmo tempo. Toda frase muito bem marcada ao sobrecarregar suas vogais abusadamente germânicas. Curioso apontar que foi a primeira vez que uma pecadora professou em apropriado tom o sabor de ser livre. Foi assim que a minha atenção ela ganhou. Precisamente ela, que pesa o olhar com o azul do inverno poente, mas expõe em contorno de pingente uma lágrima de sangue ao invés do habitual crucifixo.
Não entendo como esta distinta senhora é amiga da minha genetriz. Tão antagônicas em suas concepções, que me parece impossível um dia terem sido amigas no colégio. Ela me intriga, mas do que minha natural inquirição sobre a amizade delas. Hoje, contudo, não passam de duas velhas senhoras a contar as horas entre um chá e outro. Mas amanhã almoçaremos juntos e, absolutamente, o tédio não será o prato principal.
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