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Mostrando postagens de Janeiro, 2010

O Diário de Teegoh – Semana 23

Entre as grossas e seculares paredes, divido meus dias entre os afazeres da universidade e os poucos livros que ainda suporto ler. Debruço-me mais nas memórias que colho durante as visitas ao Louvre, enquanto meu colega de quarto baba em seu travesseiro. Não me preocupo mais onde guardar este meu caderno, pois cá, tenho a ignorância alheia a meu favor, é apenas uma questão de manter a escrita em minha língua vernácula.
Lembrei-me do gosto das francesas em algumas das noites que antecederam esta. Tão delicadas e pequenas... alvas, de sabor levemente azedo e adocicado. Tão versáteis e fáceis! Fúteis! Finjo-me divertir enquanto elas fingem me amar. No fundo, é tão justo quanto a liberdade: ambas são doces encargos de falsas idéias, ou idéias impossíveis. Mas, enquanto respirarem e carregarem o fugaz prazer do sexo farto, hão de sentir a paixão furtiva e o gesto de uma ilusão qualquer.
De todo modo, são essas ações que fazem do meu tempo ser menos que as badaladas da exausta Notre Dame.

Parte de mim

Esta noite um romântico morreu Mas a chuva que caia nada mais era do que o reflexo de um dia quente do verão. Nem mesmo as gostas sabem que nesta noite morreu um romântico. Silenciosamente. As pessoas contam os segundos em passos rápidos para não sentir o toque da chuva. Elas não sentem nada. Ninguém.
Esta noite um romântico morreu Encontrara a resposta no silêncio absoluto. A relatividade da vida se vinda para sempre. O corpo, estendido sobre livros mofados e alguns rascunhos, desintegra-se calmamente. Como se toda a pressa e a correria dos sonhos tornar-se-iam em virtudes superadas. Não há mais paixão. Acabou.
Esta noite um romântico morreu Estalado nas contas de poeira e odores da verdade jaz talvez alguém insignificante. Os copos de juventude em pele plácida conservam ainda a pureza do sexo e dos desejos. Parece intocado pela atitude cruel do tempo e dos acasos, por poucas histórias, contudo. A vida desvanece. Esfria.
Esta noite um romântico morreu As próximas noites serão contos inexistentes, …

O Diário de Teegoh – Semana 22

Os dias, sob este navio são meros acasos do tempo relativo. Seja pelo sol, ou pelo calor, ou seja pelo gosto amargo do whisky amanhecido entre meus lábios. Ironicamente, saio daquilo que muitos classificariam como o inferno para este navio de luxo: um paraíso a flutuar, como diz o anúncio. A diferença que vejo entre os lugares são apenas conveniências frágeis.
Os charutos fumados neste salão são os mesmos fumados por aqueles que mandavam matar. Uma viagem de silêncio. De jantares sozinhos. De poucos escritos. Poucas conversas. Eu mudei ou o mundo não se encaixa mais em mim? Sou eu o cego ou vivo num mundo onde o único que enxerga sou eu?

O Diário de Teegoh – Semana 21

O cheiro do mar salgado costumava enjoar-me. Mas hoje, custo entender essa minha ausência de qualquer sensação. Antes, é verdade, não era eu o ser mais emotivo dessa terra, mas me restava a inconformidade de um jovem de tenra idade. Hoje, apesar do meu rosto não guardar as marcas dos meus dias, devo ser mais velho que um ancião.
Devo ser mais amargo que fruta apodrecida, esquecida na caixa. Ao sair do campo de Hades não tive que enfrentar nenhum Cérbero, apenas a minha consciência... Morrera ali. Com qualquer resquício de humanidade. Hoje sou um anjo ou um arauto de coisa qualquer, de coisa de ninguém.