O canto do menino dos pés de tijolos vermelhos

Vem,
chegue mais perto, por favor
sou apenas eu, mas o teu brilho é tão ludibriante
que poderia, quem sabe, devolver-me a alegria
Pois do alto dessa torre, minha solidão,
apenas o entorpecido calor ousa visitar-me

Vem,
minha pequena e delicada cultivadora,
teu afago, ao trazer-me tão doce brisa, reconforta-me.
Um dia, quem sabe, em asas como as tuas
eu voarei para bem longe de qualquer lugar
e aqui será apenas um grão de areia

Vem,
que mal tem em trocarmos alguns alfinetes?
tuas cores são tantas que até me perco.
Sou filho de pai sem nome e mãe de papel
não sou de ninguém mas posso ser de qualquer um...
a hora passa, pois chegue mais perto!

Vem,
me dê, por favor, as tuas asas e tuas cores
não lhe farão falta, afinal, de tudo um pouco você viu,
enquanto eu... conheço apenas o quadrado a dobrar logo ali
e se assim não for mais, ganhará minha presença
e juntos voaremos até o fim da história.

...

O canto do menino manco,
estava cheio de encanto
E assim,
a borboleta piedosa ficou
e de suas asas se afastou.
A morte lhe trouxe a alegria
De ter feito de seu dia
a aurora de um sem espelhos
cujos pés eram tijolos vermelhos.

Mas a sorte do menino se ia
e entre nuvens ele subia
Até que um corvo o atropelou
Em pleno vôo ele se esfolou
e morreu feliz pra sempre.

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