A história de Andruz

Parte 2: Seus olhos.

Nas voltas dos dias, em que a criança torna-se o adulto prematuro, sem sonhos e coerência, acreditei que o amor existia, mesmo que ele fosse apenas um sonho...

Naquela noite, eu já havia transpassado todos os meus limites de auto proteção a favor de algo que nem sabia ao certo o que era, até então. Quando dei por mim, aos pés daquela imensa bacia de águas movimentadas estava.

Era muito maior e muito mais atemorizante sentir a presença daquela criatura aos pés do tanque. Seu movimento não só faziam as águas dançarem, mas todo o ambiente do lugar era regido sob seu controle. Quando dei por mim, meus olhos já revelaram toda minha apreensão e certa desorientação por lá estar e, naquele instante, sem saber o que fazer ou como agir, apenas esperei.

Foi por um abrupto salto de algo inominável, mas lá estava e algo tinha que fazer, mas meus músculos e vontades já não mais me correspondiam. O velho, com poucas palavras, mantendo-se plácido frente toda a minha euforia, disse-me se eu queria conhecer Andruz. Até agora eu não entendo como, nem por que, minha cabeça gesticulou positivamente e, assustei-me pois a criatura das águas saia e vinha em minha direção.

Com um salto, vi aquela grande couraça rosada emergindo. Foi então que percebi que ele tinha em sua cabeça uma espécie de coroa de pedras azuis, e outros adereços singelos. Não houve tempo de sentir pânico, ou sentir algo. Talvez eu já estivesse com tanta adrenalina circulando em minhas veias que minha atitude foi a falta de uma. Mas, se a beleza da criatura era algo única, beleza infinitamente foi presenciar o milagre daquela transformação.

Não havia uma criatura ou um homem. Eles eram uma única presença, uma presença de pura beleza que se metamorfoseava entre dois impossíveis. Calmamente Andruz se postou em pé. Em sua magnitude, parecia não sentir-se envergonhado por nu estar. Cada centímetro que consegui perceber do seu corpo emanava perfeição inumana, como se seus membros fossem feitos de uma essência inalcançável.

Quando reconquistei um pouco dos meus sentidos, os castanhos olhos de Andruz encontravam-se com os meus. Em qualquer outra situação, desviaria imediatamente, mas, não havia sentido eu fazer isso naquele instante, na verdade, nada fazia sentido naquele instante e eu também não me preocupava com eles, pois sensação mais sublime nunca havia sentido.

Apenas deixei que os olhos dele me guiassem para bem longe dos meus medos e pesadelos. Fui conduzido para o mundo que sonhei existir apenas nos contos, e que, naquele instante ele não só existia mas como eu o vivenciava.

Não parecia haver mais salão, mais piscina, apresentador de circo, convidados ou qualquer coisa... não havia mais histórias, ou jogos de conquistas, não precisava impressioná-lo para conquistar sua atenção eu o tinha por inteiro, sem ao menos dizer uma só palavra.

Em um canto, nas escadarias, permanecemos sentados por um tempo. Lá conversamos sem pronunciar uma única palavra. Ele estava dentro de mim e eu dentro dele. Sua presença me enchia de alegria, mas ao mesmo tempo sentia a tristeza, pois ali descobri o amor e sabia que logo eu iria perdê-lo. Como havia anunciado, ele morreria aquela noite.

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