Um

Sou um. Uma única folha em branco quando nasci, pronto para descarregar os traços dos sonhos. Nasci sozinho e por mais que eu tenha vínculos tão fortes com algumas pessoas, iguais ao cordão umbilical que unia-me à minha mãe. Sou um único ser, sou sozinho e sou responsável por mim mesmo desde o momento que o verbo se tornou matéria.

Sou um. Morrerei sozinho e enfrentarei o além sozinho. Posto que irei para o mesmo lugar que estive antes de nascer. Não me julgaram, ninguém me julgará. Pois não há julgamento maior e mais punitivo que a minha própria consciência de mim mesmo.

Sou um. Meus atos hoje, por mais influenciados por fatores mil, sou o único responsável pelas minhas escolhas e tenho o direito, ou melhor, o dever de exprimir a minha raiva por sentir-me culpado por sentir-me uma fraqueza que queima meu coração.

Entender o que preciso? Meu Deus, nunca me senti tão sozinho nesta vida! E, pior do que sentir-me assim é sentir raiva por assim ser! Ao mesmo tempo, percebo que algumas coisas precisam vir a tona! Preciso me entender um pouco para ao menos olhar à face das injustiças e permitir-me sentir a raiva por deixar sonhos banharem no vapor de opostos caminhos, de opostas escolhas, para ser bom quando eu não quero ser bom.

Quem sou eu? Será que sou doce e bondoso? Ou será que assim eu quero ser e me mascaro para ser aquilo que penso querer ser, sem, contudo, deixar eu ser quem de fato sou. Será que sou um assassino de almas? Será que sou um mutilador? Um ditador cruel? Porque tenho a sensação de que tenho que me controlar todos os segundos para ser aquilo que não sou pois o que sou é impróprio para um "bem maior"

Minhas atitudes, minhas escolhas, meus caminhos, são eles traçados pela culpa do tempo que corri atrás de mim mesmo ao invés de perceber tua morte? Mas como saberia eu que o tempo percorreria por tais caminhos, sendo que o tempo todo eu me preocupava de alcançar o coelho branco? Mas e agora? O tempo não é mais o que era antes? O tempo não existe se não há matéria... e ele, sinto dizer, não é mais matéria... mas minhas decisões são tidas por causa do peso da culpa... A quem tenho que justificar minhas atitudes? A quem devo deixar meus sonhos? A culpa me consome... a culpa me rege... sou quase um débil... abandono-me à busca que sombra, posto que minha face fora exposta ao céus à sua partida e, em baixo de uma árvore seca sento-me à espera dos abrutes minha carne seca comerem demoradamente. Mas eu procurava a arvore frutífera... procurava aquilo que me dessem os frutos mais gostosos... era minha busca pessoal... mas o céu não é o mesmo... não é o céu de outono...
O desejo continua... a raiva me consome... sou consciente de mim dos meus atos.. o que são nomes? O que são memórias?

Memórias são memórias! Não exigem matéria! Não exigem tempo! Não exigem sacrifícios! Pois elas vivem dentro de nós! Não há como arranca-los de nós! Mesmo quando nos levam a vida!

Assim como os nossos sonhos! Eles vivem em nós e não há como arranca-los de nós, mesmo se a vida com um punhal extinguir... mas nós mesmos contrariamos nossos sonhos e o que fazer com os cacos de vidro derramado em nossa consciência?
Sou um! Sou único! Nasci sozinho e vou morrer sozinho! O que tenho são memórias e sonhos! Nada disso tem tempo! Nada disso tem matéria! Elas vivem na eternidade! É o segredo! É o amor! É O AMOR! É O AMOR!

Contudo, não somos fortes o suficiente para matar nossos sonhos! Não tem como mata-los, mesmo quando nos fechamos para eles! Afinal, quem sou eu? Eu sou o bom rapaz porque de fato assim sou ou pois assim eu quis ser?

Sei que não sou nenhum monstro... sei que não sou isso! Mas o que fazer com a raiva e a culpa que sinto dentro de mim, se não refrear-me as próprias insígnias do amor?
E assim viverei até quando?

Viverei a eternidade se for preciso! Pois os sonhos não morrem! Não tem como mata-los!

Hoje sei que posso ter abafado o meu sonho! Mas ainda vejo a luz bela da esperança sobrevoar-me como um belo pássaro. Amanhã partirei e vou fechar essa ferida que há em meu peito. Trabalhei com as mãos para conseguir me despedir e então, talvez perceberei que eu sou capaz de ser o que sou, sem mais culpas, sem mais raiva... apenas serei eu mesmo, em plena luz... afinal, eu sou sozinho, nasci e morrerei sozinho, mas minhas memórias e sonhos nunca me deixaram sozinhos.

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