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De volta à inocência

Parte 1: a vinda do sem rosto Os dedos tocam o contorno do teu rosto enquanto cultivo o privilégio de perceber o nascer brilho dos olhos recém lavados pelas lágrimas de uma tristeza que se foi Contidos e abafados foram os teus gritos mas nem as cicatrizes da violência vivida foram capazes de impedir que um sorriso alcançasse os teus doces e brasis lábios. Contudo, vejo que rasteiras lembranças teimam em limitar o gesto da felicidade onde os ombros calejados se encolhem em busca da proteção do abraço amigo Sei que sou apenas um rosto disforme ou uma voz inaudível na tua memória. Mas são entre frias linhas que procuro o dia em que um abraço poderei te dar

Ao acordar

Para ver o sol neste dia nublado assumo as cortinas que embrenham o meu amanhecer. Mas já não é mais curto e longínquo o tintilar dos sinos. Chamam-me neste momento. As respostas, porém, continuam engavetadas e perdidas nas brumas do futuro. Restam-me as incertezas. De todo modo, fácil é olhar as cantigas de ontem e pensar que foram providenciais. Elas, em seu tenro e doce sabor, conclamam vitórias e derrotas. Sempre tão distantes... Distantes e irreais. Passado feito de penúria e retratos rasgados. Não me importam aqui. Restam-me as incertezas. O sol dedilha as volúpias dos bordados de desculpas e evidencia o meu corpo desnudo. Neste momento não há como escapar de mim mesmo frente ao espelho. Eu vejo-me! Todas as cores, entre os meus defeitos e os bons feitos, estão a me encarar calmamente. Restam-me as incertezas. Levanto-me! Pois já não há mais como remediar as malvadas peripécias da luz do sol. Os segundos seguintes vestem meu corpo com as armas imaginárias. Estou quase pronto. Bus...

O Hino de Seleky

Visto-me com o teu corpo para sentir-me teu Entre suas curvas e palavras, tornam-se os gestos que nunca antes pude vivenciar. Quem és tu? Visto-me com a tua vergonha e meus valores destorcidos de uma vida amarga que inventei. Minhas portas são as fáceis de abrir. Quem és tu? Visto-me com a cruz e palavra. Calúnia! Trago a ti discórdias, dúvidas e mentiras. Trago-lhe a certeza. Quem és tu? Quem és tu, figura translucida, que tateia os mares da minha vil vida? Seria aquele que em palavras fez existir uma amizade rasteira, cujo mérito teria sido um simples jogo de cartas? Seria, talvez, um pouco de cada um. Das tuas histórias... Dos teus alter egos sórdidos, enraizados na imaginação doente de uma alma já morta? Ser ausente de si. Triste... Amargurado... Eu senti o sabor das tuas lágrimas quando zombou da ingenuidade de um amigo. Mas sei que elas foram bem menos ácidas do que aquelas que provou quando teve que aceitar o óbvio. Eu sei quem és tu. Mas, isso não importa, afinal, a pergunta ...

Má Lembrança

Impeto rumbor de uma dor que consome o septo desta alma sendo incapaz de impedir que o amargo dos dias quebrados assombre os findos resquícios de saudades, e ali armados de descomunal tristeza, emolduram os vícios nesta forma. Os dias calangueiam as frescuras e dissipam meu destino, enquanto o sol teima em demonstrar as virtudes das vidas entre as frestas da janela do meu quarto escuro de feridas, porém a sofreguidão envenenou o que antes era cristalino. Pode ser que seja mais uma confusa temporada de inverno ou uma marola a fluminar meus pecados de outros veraneios mas, por hora, finjo não acreditar em nada que seja eterno Pois, pode ser que tudo seja nada e aquilo que nos é herança se transforme em desilusão e promessas infundadas de terror. E por fim, perceber que sou para ti apenas uma má lembrança.

Quase

Onde eu posso reconhecer o teu sorriso, se ele não se forma para mim, Onde está aquele azul só nosso, nossos sonhos de irmos até a Grécia? Como devo pensar no meu dia e deixar o futuro ser apenas suposição, Como devo, melhor dizendo, ser o hoje se o amanhã ainda são brumas? Preciso aprender a domar os desejos ou sou alguma face da perdição, Preciso ensinar ao meu coração a não percorrer o caminho impossível? Seja como for, o dia é vivido, mas importa-me o como ele é tido Seja como for, nas curvas contraditórias e incertezas da vida... ..eu te amo...

O Diário de Teegoh – Semana 34

Devo admitir que ela não figura as apelações do inferno. Mais parece um pônei de circo, que entre sua educação primorosa e suas plumas e enfeites, ela deve ser um pouco acima de um espetáculo programado. Tão pacíficos são seus gestos que assustar-me-ia vê-la revoltada com algo. Ela nasceu para ser domada, seja pelo pai, pelos irmãos, e agora, pelo futuro marido. Confesso que isso não é de todo ruim. Para mim. Não reconheço a menina que um dia as sardas do rosto foram-me motivos suficientes para enterrar a alma dela entre minhas chacotas. Hoje, ela é tão refinada que talvez não haja mais lágrimas em seus olhos, ou então, todas elas já se foram. Derramadas. Por outro lado, não reconheço minha mãe, apesar de seu gosto peculiar por grandes vestidos continuar o mesmo. Ela, de algum modo, esta espremida entre os medos das incertezas políticas e as rugas em seu rosto. Por um segundo, apesar de discordar veemente das suas atitudes, eu a compreendo. Por fim, difícil não é saber o que é o certo,...

O menino que sabia das coisas (Epílogo)

As notícias do dia seguinte não se associaram nem com as plumas nem com as palavras que voaram pelos céus da cidade naquele mês. Um suicídio. Era apenas isso. Culpavam os país, a sociedade, o mundo violento... Todo mundo buscou o dedo que empurrara o garoto para a morte. Mas ninguém entendeu o que aconteceu. Ninguém tampouco questionou-se sobre as possibilidades. Afinal, vivemos em uma sociedade onde há uma tampa para cada caixa. Cada ato é prescrito e um cristão sabe onde o bem vive e sabe principalmente onde o mal de cada um vive. Uma ou duas semanas foi o tempo necessário para cidade esquecer o acontecido. Isso, para os mais sensíveis, pois no dia seguinte a crise econômica estourou e todos estavam preocupados com seus bolsos. O garoto morreu tentando trazer a alegria do mundo. Ele conseguiu por um instante, mas as pessoas estão tão desesperadas e ainda são crianças do mundo, a aprender o banal. Elas erram, como eu. Julgamos e condenamos. E assim, matamos não apenas o corpo, mas a e...