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Truques para viver

Foi o reconhecimento ou a monotonia urbana que moldou assim a condição dos homens? Espero que este fluido ratoneiro de devastação não cumpra o dever de seus dias prometidos... Não gostaria de perder as minhas esperanças. É o que me resta por aqui, além da solidão. De todo modo, há ainda algo a se considerar: Eu ainda posso ver as mãos da vida em mim. Como pudemos nos perder dessa forma? E eu que pensei que cantávamos juntos... Pensei que nesta brincadeira e contradições fossemos os melhores domadores de leões... Mas tudo bem. Tudo deve ficar bem um dia. Eu espero que este pássaro voe para longe. Talvez, em outros tempos e outras terras, poderemos juntos andar novamente. Como nossa graça pôde desvanecer desse modo? Ao menos, aprendemos muito no caminho. Eu deixei o jantar de restos pronto para a noite. Mas o entardecer toca meus sonhos em azul. Você conseguiu tirar-me do meu castelo do céu. Você ouviu minhas idéias e sorriu pra mim. Mas eu sabia que minhas pernas eram frágeis E talvez e...

Entre...

Talvez eu nunca encontre os teus defeitos debaixo da ponte. Porque renasci enquanto caminhávamos juntos, nos sonhos. Porque descobri o refúgio dessa insuportável sociedade-paz. Mas, tudo bem! Um passo de cada vez... afinal, eu já cai. Estou no chão mais uma vez e nada mais quero pensar. Mas, tudo bem! Um passo de cada vez... devia assim ser. Estou no chão e desta vez pode ser que eu fique por aqui. Talvez eu não realize os meus desejos mais íntimos por aqui. Porque parece que o meu tempo não é contato nos segundos. Porque sou dono de um mundo que ninguém quer morar. Nem eu... Talvez eu tenha me enganado sobre a textura dos teus beijos. Porque não encontrei lembranças ternas na minha cabeça. Porque sentimento sem troca é saudade de quem se foi. Mas, tudo bem! Não poderia existir o nós, por aqui. Estou cansado de dançar esta música sozinho. Mas, tudo bem! Não pode existir nada além do eu. Estou cansado de segurar todos os lados do laço. Talvez eu renasça outra vez e aprendo a andar de pa...

O Diário de Teegoh – Semana 29

As noites de Paris estão mais agradáveis nessa época do ano, principalmente por Tobias não mais estar tão presente. Não me irrito facilmente, eu apenas estava um pouco indisposto com as loucuras daquele jovem. De todo modo devo procurá-lo, afinal, neste mundo, é melhor conviver com os loucos genuínos do que com os mascarados de Veneza. Além disso, não tenho ao certo qual seria o prazer da loucura daquele rapaz e não quero que minhas ancas sejam devoradas desprevenidamente. É curioso contudo como fantasmas gostam vir me visitar! Há duas noites sonhei que Pierre estava sentado debaixo de uma árvore de um parque qualquer. Deste sonho lembro-me perfeitamente do cheiro das rosas daquela imensa roseira. Mas, ao me aproximar, vi que tais rosas eram vermelhas pois suas raízes se alimentavam do sangue do rapaz, esturricado, em sono profundo... Será a morte sugadora de sangue, como um vampiro? Ao menos o fim parece ser menos melancólico se transformado em rosas tão vivas.

O contador de Histórias

Posso imaginar a loucura dos seus atos desenhando-se em frente à tua incapacidade de agir. É fácil fazer da minha imagem o personagem principal do seu romance de horrores. Eu posso ser o teu vilão, mas isso não passa do reflexo da tua insanidade. Sou aquele que você nunca tocará, pois o meu cheiro, perto do teu apodrece entre tantas mentiras e tantas histórias. Porém, você não é um contador de histórias... é apenas um ser apaixonado, solitário e absurdamente carente. Fico neste pedestal que você construiu pra mim, enquanto percebo você se afogar dentro de você mesmo. O jogo vira. Ganha outra cara. Você não consegue controlar e isso te desespera. Não sou uma pessoa má. Nem sou eu que conto a ti essas palavras. Sou a sua consciência que adormeceu nesta noite. Enquanto você brinca de cavar minha cova. Enterrar-me ainda é fácil, afinal, não estou muito acima do peso. Mas você viverá bem enquanto eu por lá estiver. Isso é o que importa. Portanto, divirta-se!

O Diário de Teegoh – Semana 28

Uma semana conturbada, posso dizer. Perturbador, em última instância, tem sido perceber a serenidade dando seu posto para a loucura e autodestruição. Temo, mas não muito, que essa crise reverbere gotículas em mim. Tobias é um rapaz que poderia aproveitar mais do vinho e menos da loucura pessoal. Ainda mais estando em Paris. De todo modo, não saberia descrever como eu o vejo ou o que posso esperar dele. Essa semana eu li algo sobre a Lilith de Lucius Apuleius . Curioso esse livro vir a mim neste momento. É uma pena, contudo, eu não acreditar em destino, nem em bruxas. De outro modo, poderia deliciar-me com um suspense fantasioso. Mesmo assim, essa foi uma semana atípica, no modo como perdi-me entre os devaneios de Tobias. Isso acabara neste instante. Pois temo ser o absinto dele diferente do meu.

O gosto da descoberta

Era simples. Um coagulo de sangue estancado há anos. Com vida, porém quente: porém adormecido. Apenas esperando. Esperando... Até que o dia nasce. Ele acende aquilo que lhe faltava, como um milagre. Ele conhece o sabor da terra, o tenro gosto do ar a tocar os lábios. Já não era ele apenas uma gota... O céu deu a chuva, que fez as corredeiras de fertilidade e amor, e assim se formou o barro. O homem pouco a pouco se desenhou contando com a gentileza do toque. Esculpiram-se os arredores do desejo em torno de um torço firme. O corpo era imaculado e portava todas as virtudes. Nenhum vício. O sol trouxe a beleza das cores e os cachos dos seus cabelos tornaram-se brilhosos. Enquanto, como uma floresta, o corpo em pelo, explorava suas inconstâncias. Mas o despertar do dia trouxe também o outro, que não era tão belo, nem tão sábio, tampouco puro. Era o dia em que a virtude se banharia no sabor do vinho de baco. E seja ele Adão, David, Sebastião ou Jesus... Sua pele enrijecia em virilidade e su...

O Diário de Teegoh – Semana 27

A obsessão de alguns pela dor impalpável é algo lastimável. Enquanto deito-me na bonança dos dias, entre o fastio e os vícios, Tobias especula cada segundo na tentativa de escapar-se dos fantasmas do arrependimento que ele mesmo criou. Acostumei gastar algumas horas do meu dia com ele, contudo. Mas, algo me inquieta ao olhar dentro daquelas esmeraldas em forma de olhos. A sanidade esta mediando um equilíbrio delicado dentro naquele rapaz. Queria sentir pena. Mas, de todas as marcas e buracos escavados em corpos que já vi, nada é mais espantoso e evasivo que aqueles olhos verdes. Mesmo assim, não sinto repulsa. Os dias correm rápidos por aqui desde que Tobias chegou.