O Desajustado

Olhei para você, com olhos atentos, a fim de encontrar uma nova tonalidade nessa aquarela anárquica chamada sentimentos. Busquei os prazeres para o além de auto afirmar a frágil dignidade dos trinta e poucos anos, pois queria, na sutileza, descobrir que há possibilidade em surpreender-me através das brechas institucionais que nos acorrentam no cotidiano. Queria ser algo além do que um ventríloquo social, mesmo que apenas entre nossas quatro paredes alugadas ou margens desse retrato... Pensei que poderíamos ser mais que isso.

A tela que reservei para você não estava em branco. Afinal, nenhuma boa história é contada a partir das distrações de uma suposta perfeição monocromática. Não precisava ser verbalizado, mas o caminho que podíamos percorrer juntos não teve o início em bodas de papel. Quis eu te ver, acima dos meus instintos e desejos. Por infortúnio, eu consegui o que queria. E no gozo daquilo que dizer resguardar para alguém especial, te trouxe todo o torpor de uma vida simples, porém estigmatizada por dogmas de folhetim de qualidade duvidosa. Mas, espere um pouco: era sobre você que eu me referia? Era sobre a tua insatisfação.

Se eu pudesse te deixar espiar todas as notas mentais das coisas patéticas que percebi durante minha vida, não se daria ao trabalho de tentar argumentar. Sei das tuas dores e as respeito, mas, a essa altura, as tintas já haviam secado, e qualquer alteração poderia apenas esconder as incoerências de um ser criado na fragilidade de se auto representar! Mas com apenas um olhar um pouco mais apurado separaríamos a beleza fugas dos olhos de príncipe das amargas travessas do caráter indigente.

Não houve erros. Escolhas não são erros, são condutores de você mesmo. Apenas isso. Porém, sintonizar o que você é com aquilo que você queria ser é um exercício difícil e doloroso, que te tiraria da zona de conforto da ignorância de forma a se questionar sobre a necessidade da tua existência – sendo ela tão falível. Porém, passado isso, há um estranho prazer em se perceber vulnerável.

Tal percepção torna-se um sentido, que não serve para muita coisa, afinal, não nos imuniza de sofrer novas decepções. Mas, nos resguarda de alimentar a crueldade e ajuda a repelir qualquer violência do cotidiano. Enfim, se há valor nas palavras de um coração partido, vista-se com elas, da maneira que o lhe fizer se sentir melhor. De todo modo, eu já te vi despido e foi sobre essa imagem que lhe entreguei o quadro. Tal obra foi me paga com bananas.

Roof detail from ‘Ascending and Descending’ by M C Escher




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gentileza

Reflexos

Sobre o cotidiano