O Substituto

Trata-se de um dia ordinário. Mesma rotina. Mesmos péssimos hábitos, que não te deixa sair do lugar, mas também não te mata. Pois, há uma mesquinha virtude em vangloriar-se por aquilo que não tem. É pesado, desencadeia o ódio... É frustrante, mas, por outro lado, escancara a emergência da vida. E essas situações são perfeitas para se esquivar da necessidade da aceitação.

No princípio, podia me sentir bem quando me esforçava e conseguia me moldar às situações. “Fazer-te bem, me deixa bem”. Mas, a verdade é que esperava que o rio do teu gênio fosse dosado pela necessidade de acreditar no amor. Cada cena assim, me deixava tão bem quanto um soldado que voltara para casa sem uma perna. Eu já me como se membro algum me restasse ainda.

O cotidiano não é o culpado pelas minhas escolhas ansiosas. Todos os meus sorrisos foram sinceros, mesmo aqueles que o preço foi muito além do que eu podia arcar. Sou a escala das escolhas em tempos onde a pedra mais preciosa para maioria está no próprio umbigo. Enquanto o conforto de uma tela nos permite pintar o mundo de qualquer modo, menos nas cores de nós mesmos.

O orgulho foi dilacerado aos poucos por conta da necessidade de montar um mundo melhor para você. Não tive receio em subir todos os degraus, mesmo nos momentos em que faltou quase nada da minha esperança. O medo não nos faz melhor. A violência não faz mais fortes. Mas, enquanto isso, brincamos de teatralizar a vida. Nos tornamos os substitutos. E eles podem qualquer um.

Sou o vício. Rodo entre todas as paredes da memória e não vejo nem mesmo o respeito próprio que me disseram que deveria ter. A roda da vida dilacerou os contornos dos sonhos enquanto procurava desesperadamente pouco de alento nas vidas que ainda diziam tem esperança. Sou vazo vazio. Sou Tingido de insegurança. E, como um mago, sou a imagem que você fez de mim. Hoje já não mais sou eu.


GOYA y LUCIENTES "Desastres de guerra"



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