sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A necessidade

Para além de qualquer silêncio, pretendi ser as intempestivas noites de verão, mas só consegui efetivar as inoportunas tempestades de inverno. Gritei! Gritei muito! Até o ponto de não mais agüentar ouvir minha voz. Como se estivesse a conquistar na força uma luta cujo vencedor levantara o estandarte antes mesmo de eu nascer. Eu tive que perder a voz tentando fazer com que me escutassem, para perceber então que não basta apenas ter boa audição para saber ouvir.

Simplesmente porque pessoas de opiniões são, por natureza, surdas. Tornando qualquer empreitada contra essa indagação uma cruzada casmurriana! As opiniões formadas só servem para estagnar as estruturas que todos, sem exceção, reclamam e tentam descartar ou abolir. Desde um ultra-relativista cético até o maior dos ortodoxos religiosos bebem do mesmo cálice sagrado: os dogmas.

Em nenhum momento colocamos essas convicções para enfrentar o poder da dúvida. Onde, uma simples conjunção de duas palavras seria capaz de abrir universos de possibilidades: por quê? Temos a facilidade de proferi-las quando questionamos as convicções alheias, afinal, enxerga-se melhor o umbigo do outro... Neste sentido, é claro, a dúvida torna-se a arma contra nossos arquiinimigos da história e não uma ferramenta de introspecção. Este texto mesmo é a materialização de uma convicção, tão ruim como qualquer outra. Pode ser até que você aproveite algo, caso a beba de uma fonte cartesiana, mas, mesmo assim, você é tão tolo quanto eu.

Nessa caminhada descobri ser capaz de sintetizar e historicisar a filosofia e os pensamentos ditos complexos. Percorri as encruzilhadas de Virgínia Woolf, Proust e Lispector. Embriaguei-me com Goethe, Calvino e Gabriel Márquez. Viajei pelos mundos de Andersen, Carroll e Tolkein. Mas nunca fui capaz de atingir em textos próprios a profundidade intelectual desses senhores.

Também conclui que nem sempre vou entender o que queriam os outros dizer. Afinal, não seria capaz, e tampouco, petulante para encarar tal empreitada em um mundo onde as palavras ganham significações subjetivadas ao gosto do consumidor. De todo modo, me delicio com a possibilidade de sentir o vento tocar o meu resto e perceber o simples fato de poder viver.

Já amei. Amei como Caravaggio, o corpo humano. Amei como Frida Kahlo, a possibilidade de procriar. Amei como Picasso, o outro e amei como Manet, a saudade. Descobri o amor próprio. Perdi todos os amores ao conhecer o tempo. Pois ao percorrer os caminhos do desejo, através da visceral proficuidade dos instintos descobri que dessa liberdade só me escravizei, assim como Rousseu argumentou, lá no século XVIII.

Perdi tanta coisa que se elas pudessem ser contadas como órgãos humanos eu teria perdido duas vezes o que sou. Exageradamente idealizei tantos mundos que se findaram na minha falta de capacidade que entendi porque o pequeno príncipe morou em um satélite solitário. E nessa caminhada descobri que mestres existem. E eles me ensinaram a ser melhor, mas talvez eu nunca tenha conseguido demonstrar algo realmente digno de ser memorável.

De príncipe a esperar e castelos imaculados, eu vivenciei os meus vinte e seis anos, para chegar hoje e assumir que sou demasiado humano para perfeito ser. Perdi a capacidade de chorar a partida dos amigos pois nunca fui sincero com eles. De todo modo, não me culpo, afinal, nunca fui sincero comigo mesmo. Fui falso e invejoso. Afastei-me com medo de ferir ou com medo de ser ferido. Morri muitas vezes ao sentir o desprezo de quem eu amei. Nem todas as feridas cicatrizaram... creio que não cicatrizarão.

Corro para a casa dos vinte e sete anos sem grandes perspectivas, porém, seria insensato não perceber que viver significa necessariamente crescer (mesmo que seja apenas para os lados). De todo modo, um certo sorriso brota no meu rosto que ainda não foi marcado pelo tempo e pode ser que amanhã eu descubra aquilo que um dia eu consiga me tornar aquilo que Nietzsche sugeriu: “Torna-te aquilo que és”

domingo, 12 de dezembro de 2010

O retrato da perfeição

Tudo começa no acaso. Num estonteante jogo de sugestões.
Onde você decide quando na dança entrar. Você decide...
Você define os pares de sapatos que melhor ficam nos seus pés.
Preferencialmente aqueles capazes de esconder os dias cansados
Você escolhe a melhor camisa branca e o melhor discurso mudo,
Mas porque a sensação de insegurança persiste em acompanhar-te?

Vai lá garoto! Você tem um belo olhar.
O transitar nas amálgamas das contradições
Fazem de ti um vaso viril e estonteante, um
mancebo de concepções imprudentes.
Completo.

Não haveria vontade de viver se não pudéssemos passar o portão
E você é alto! Terá facilidade em correr caso precise escapar de lá
E se as pernas tremerem demasiadamente, vinho lhe recomendaria.
Mas, cuidado! Um vaso fica mais bonito depois da terceira doze,
O necessário para fazer com que esqueçamos não apenas os medos...

Vai lá garoto! Você tem um belo olhar.
O transitar nas amálgamas das contradições
Fazem de ti um desprovido proscrito de moral, um
Canto escuro de atitudes recolhidas.
Completo.

Se, por fim, a noite não lhe calhar lembranças merecidas
Lembre-se deste que vos fala, não apenas as palavras você teria
Mas o meu abraço terno, e o convite para uma incursão ao gesto
Do inusitado prazer em perceber os traços de nossa nudez.
Faríamos então um retrato da perfeição?

(risos)

Vai lá garoto! Você tem um belo olhar.
O transitar nas amálgamas das contradições
Fazem de ti um coração galante de sentidos, um
Labirinto de histórias inacabadas.
Completo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Muito prazer, eu sou o amor.

Sou aquilo que fica escondido no canto da intimidade. O impronunciável, o inaudível, mas nunca o indolor. Teimo em pronunciar-me aos quatro ventos, como os festins de todos os carnavais, mas poucos conseguem ouvir minha obra prima, pois confundem-me com o leviano sabor do entorpecimento.

Já fui um encontro de olhar, um pedaço de papel, juras infundadas e promessas de eternidade. Fui o cabo de tormentas, a morte, a dor... A incansável busca por sucesso e os caminhos tortuosos, eu fui para vocês. Fui tanta coisa e muito mais para agradar a todos, até que me esqueceram entre o entretenimento das facilidades.

Talvez, eu deva desculpas a mim mesmo por um dia ter feito-me um retrato de facilidades, enquanto a verdade sempre foi evidente:não é fácil. Mas, hoje, enfim, quando o sol dorme no crepuscular do verão, posso afirmar que eu nunca poderia ser quem sou se não fosse o desejo que ultrapassa a pequenez da liberdade ou a facilidade das faltas de escolhas.

Muito prazer lágrimas, sou o amor.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A morte da fé

Hoje não devo romantizar o veneno que sinto.
Pois ele é tão doce quanto as areais das praias.
Sinto o sabor da angustia tomar-me o cotidiano
Quebrando as finas camadas da realidade criada.

Se pudesse, deixaria de pensar por um segundo,
Deixar-me-ia banhar no silêncio dessa anarquia.

Dos venenos que guardei para um derradeiro dia
Findaram-se todos desde quando li suas palavras,
Onde fiquei entre a simplicidade de nossas curvas
e o alívio de descansar no aconchego do teu colo.

Se pudesse, deixaria de pensar por um segundo,
Deixar-me-ia banhar no silêncio dessa anarquia.

Hoje não devo concretizar este memorial triste,
É véspera de natal é há uma boa nova nascendo
Ela não dever ser para mim, sou proscrito da fé
Sou aquele que não acredita, e queria acreditar.

Se pudesse, deixaria de pensar por um segundo,
Deixar-me-ia banhar no silêncio dessa anarquia.

Ele não existe, e porque eu sinto doer?