O curso e o canto


A minha vida se mostra muito fácil e simples, às vezes. Quando por exemplo, me dou o direito de julgar as coisas. É claro que de uma forma bem superficial e inofensiva eu destrono os reis, mato as idéias consolidadas e as bruxas, que perto da minha teimosa lábia se tornam brincadeira de criança. Tudo parece ser um misto de ilusões e facilidades onde eu, no meu mais alto posto deste pedestal de mim mesmo, vejo tudo através de uma distância confortável e estagnada. Mas, percebo agora que só demonstro nestas palavras vulgares o quanto estou desviado do meu eu.

Mas o tempo dita as horas que consomem os dias de primavera sem pedir permissão, assim como eu não peço permissão para ser quem sou, apenas sou, Mas este libertino jogo de viver traz o maravilhoso e confuso compromisso de nós mesmos (ou a correnteza da inércia – por mais contraditório que isso possa parecer). Não sou nem um nem o outro, sou em cima do muro, sou o muro, mas não suporto mais ser quem sou do modo que sou... Deparo-me com alguns grandes desafios, mas que hoje me pergunto o por quê de eu querer enfrentá-los, ou seja, será que é isso mesmo que eu quero? Não que os resultados me trariam ônus (ao contrário, eles podem – e vão – me trazer muitas facilidades de se viver) apenas, creio eu, dependendo do modo que ela for processada, ou, em termos menos mecânicos, como ela for vivida, eles podem se tornar um fim, desvirtuando-se de sua finalidade de ser um meio.

Acho que estou cada dia mais insensível ao mundo. Acho que aprendi muitas coisas que me ajudaram a encará-lo de modo mais real, mas não estou sabendo lidar com as coisas que aprendi e estou me perdendo mais uma vez dentro de mim mesmo... Acho também que essas palavras que chovem rarefeitamente nesse mundo irreal podem me servir como um sinal que a minha lei universal ainda emana o calor de ser quem sou (mesmo perdido em algum lugar) e que, por mais que eu possa me perder nos becos e atalhos dessas montanhosas e fantásticas cidades, há algo dentro de mim que me faz perceber a esperança do sorriso daquela criança que morreu por causa indiferença de todos nós.

Os dias que se passam me assustam, pois aquele que acho que sou não é o mesmo daquilo que eu faço de mim. Será que é uma fase? Será que é a pressão de ser um alguém melhor? Será que eu vejo além do obvio? Não quero respostas de ninguém, pois as respostas estão dentro de mim. Preciso arrumar o castelo de cristal, enquanto isso, visitarei a caso do lago de bolhas para tocar meu violão sem som e ouvir o ilusório e afetivo canto das sereias.

Um dia...

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