Dos Monstros Que Somos e Criamos

Ele escondia o rosto. E nas fotografias tornou-se o mistério que almejou. Ele conhecia cada feitio de si mesmo e dominava até o que menos gostava do próprio corpo. Para alguns, ele era àquele que se perdia, pois, em comparação aos irmãos, seu futuro não era traçado na forma que haviam moldado para ele. Não era assim que eu o via.

Ele escondia o rosto. Mas mostrava o corpo sem o menor pudor. Dava ao seu leitor particular o gosto de um prólogo e, talvez graças à áurea ingênua que ele exauria , manejava sutilmente os desejos de quem o quisesse ler, de modo a oferecer-lhe apenas o necessário para brotar a necessidade de ler cada linha daquela criatura. Até o fim.

Ele escondia o rosto. Já não do mesmo modo as suas partes mais intimas. Estas apareciam num furor típico da idade, enquanto os pelos pubianos e aquelas que escapavam para todas as outras direções, vastos, não demonstravam precaução em demonstrar o desejo momentâneo que por ali objetivavam estar. Já não se trata de um garoto.

Nunca ele assim o foi.

Ele te escondia o rosto. Mas te cantava com voz doce e nem sempre tão aparada e segura nos graves. Contava poucas estrofes de uma história própria. Cujas lacunas se tornaram o veneno do alquimista, que, ávido por encontrar a vida eterna, abraça a esperança no ato do gozo. Do primeiro, segundo, terço gozo de cada um. 

Ele te escondia o rosto. Apenas na fotografia. Mas depois nas palavras ditas e nas palavras escritas. As lacunas da história de um jovem rapaz que sofrera de múltiplos reveses da saúde, foi o manto que o transformou em neblina e tornou o teu objeto de desejo na medida exata necessária para te frustrar logo após. Ele desapareceu.

Ele te escondia o rosto. E, assim, você percebe a tua eximia capacidade de transformar qualquer mediocridade de um ser jovial em Holden Caulfield. A culpa, porém não é dele, afinal há um monstro deformado em ti, cujo imaginação rasteja os desejos e cavar armadilhas para si mesmo.  E as circundam.  Infinitamente.

O monstro que é capaz de decifrar pistas do epilogo que o aguarda,
 mas não de se desvincular dos perigos da rejeição.

O monstro que ficou sem fotografia. Mas tem a certeza de que
 o “ele” está de mãos dadas com outro monstro chamado ninguém. 

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