Segredo de menino

Qual é a maior torre que consigo morar? Mas tem que ser um lugar onde eu possa existir sem tempo, sem dor... Brincar entre os segundos inexistentes até não mais sentir as pernas e enfim esperar a saudade apontar-se no horizonte. Mas lá, eu não tenho tranças, cortas, portas, tampouco janelas... a saudade, tampouco a consciência podem entrar e no horizonte que eu as vi, eu as vejo desvanecer.

Sou apenas eu. E, frente a todas minhas virtudes descubro os meus maiores defeitos. Eu brinco com os meus defeitos. Imaturamente. Afinal, pouco importa virtudes e defeitos, saudades, vontades e desejos, pois cá eu me protejo de mim mesmo.

Afinal, reservo o claustrofóbico cômodo da torre para aquilo que desejo extirpar de mim, por isso a torre mais alta não fica vigiando lado qualquer do meu castelo de cristal. Não há lugar para ser só eu no meu castelo, pois lá abrigo a solidão e outros três fantasmas.

Já na torre esqueço-me de ser eu e aos poucos me afogo na ausência de consciência. Aos poucos destruo qualquer resquício de amor possível para um sonhador.

Esvaneço entre as paredes do vazio.

Morro.

Respiro.

O que antes eram paredes, fibras de algo indescritível tornam-se entorse despertar aquilo que sinto entre minhas pernas. Aos poucos sinto o calor da vida encher meu ainda sadio vazo com a pena de sentir mil agulhas fenderem cada partícula da minha consciência.

Por fim, percebo que a torre virou excremento que me matou, alimentou e fez com que revivesse, mas diferentemente de uma borboleta, que conclui o ciclo da vida de modo poético, retorno a minha integridade não mais como um menino, mas sim como um homem.

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