segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Diário de Teegoh - Semana 14

Ontem recebi uma carta de minha mãe. Foi a primeira vez que percebi o quanto ela me é querida. Não sei se um dia eu admitirei isso a ela, contudo, já me satisfaço com o fato de percebê-la como eu a percebo. Infelizmente isso não faz com que os meus dias se tornem melhores. Tento esquecer os horrores que tenho vivido, mas minhas noites são atormentadas por pesadelos que conseguem destorcer a realidade para algo ainda mais bizarro.

À medida que os dias se findam minhas esperanças parecem estar muito além de onde ainda se enxerga a luz do farol. Não vivo mais entre homens, são bestas fedidas e moribundas que me cercam e eu não tenho para onde fugir. Tento manter minha sanidade nas ironias deste mundo medíocre e nas escritas deste diário para quem sabe um dia eu volte aqui, ao ler essas palavras, mas como uma história que teve um bom final.

Minha mãe quer que eu vá para a Europa. Eu já estaria lá mesmo sendo o mundo todo contra, mas, de fato, não posso sair daqui, pois parte de mim ficaria. Preciso achá-lo! Apenas assim poderei talvez reconquistar um pouco de paz. Talvez eu parta esse fim de semana. Sair do quartel não é difícil, afinal, morei entre fazendas toda minha vida e lidar com animais perigosos, porém acéfalos, não é um desafio difícil para mim. Afinal, tenho notícias de um novo cativeiro de prisioneiros e dizem que lá estão os boêmios da primeira investida. Ele deve estar lá. Enfim, T.

sábado, 16 de maio de 2009

As desordens do silêncio

Entre as cobertas enrugadas de uma cama não feita, sonhos e expectativas movem-se silenciosamente. Algo brinca em meus pensamentos: são quase imperceptíveis, mas, ao mesmo tempo, totalmente ensurdecedores os sons que reverberam o titilar de cada idéia a se construir, de cada personagem a se desenvolver, de cada rima não concretizada por ignorância ou limitação.

A inconstância dos atos faz com que os erros tornam-se constantes admiráveis e eu brinco de ser quem não e assim perco um pedaço de mim em cada corpo mal repousado, em cada alma que conheço o cheiro perdido... o que sobra são idéias e perspectivas que crio. Não vejo ninguém, vejo apenas o que quero ver, até quando um qualquer petulante me traz de volta para o navio dos condenados.

Meus travesseiros coloridos e pesados... não mais bastava ser apenas um para tantas pessoas habitando uma única mente. E o que falar dos homens? Eles estão por ai, a buscar um pouco de pecado entre as palavras mal contadas de um contador contaminado de virtudes. O que falar dos anjos? Eles não me ouvirão contudo. O que falar de mim? Não pergunte, pois não gostaria de saber.

Mas, se teima em um dia sentir-me, levo as flores das tuas idéias e, em troca, construo você em um molde perfeito de falsas idéias. Minhas ilusões se desfazem ao primeiro risco no papel, suas curvas não são tão belas como as que eu vi... ou sonhei... ou quis ver... Mas, para tudo se há algo a guardar! Não é isso que dizem? Se teimares em ainda querer saber o que eu sou, posso dizer que parte de mim é ousadia, parte de mim é arrependimento.

domingo, 10 de maio de 2009

O Diário de Teegoh - Semana 13

Os dias por cá delongam-se imensuravelmente! O treinamento de tão intenso que é faz com que a própria palavra “intenso” pareça não servir para demonstrar o quanto é a minha sensação de esgotamento. Minhas palavras são vagas por conta disso. Começo a não sentir os dedos dos meus pés. O inverno começa a castigar os vigilantes e, penso ao borrar essa folha neste quase breu de quarto de quartel, que eles - os estudantes - não têm chance alguma contra essa brutalidade que nos transformam aqui.

Meus dedos parecem mais com grandes caramujos, de tão inchados e tingidos de sujeira e óleo... Irreconhecíveis são meus dedos e minhas mãos, aqueles mesmos que conheciam a sagacidade do escape entre teclas do piano, e hoje, empunham armas nas trincheiras de suor, sangue e horror. De todo modo, não devo reclamar, pois daqui uso o meu anonimato para procurá-lo, mas por tantas vezes sinto-me tão exausto que não tenho forças para grandes empreitadas secretas.

Tive algumas supostas pistas, mas, infelizmente, findadas em decepções. Talvez mais sabe o jornalista petulante, que vive atazanando a vida dos generais, do que um mero peão como eu. Mas, se por um lado, não nos informam de nada à não ser quando é hora de ir para os frontes, tenho como vantagem a indiferença e a subestimação que fazem de mim. Enfim, Teegoh

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Papéis que voam

Ando por ai, meio sem jeito, meio sem rumo...
Tentando te encontrar no silêncio, no escuro.
Busco tuas palavras escassas, em desenhos livres
Ou os beijos perdidos no meu corpo, teu cheiro.

Canto o canto perdido, pois a saudade dói...
Enquanto isso, busco olhar para o céu de veludo;
Contar as gotas do dia sem tua presença... enfim,
Cubro-me das lembranças dos dias prometidos.

Mas, se não bastar ser aquele que sou
Para quem sabe a sorte trazer-me enfim
a relíquia da tua companhia e textura...
Morrerei nos braços do vento alheio

E eis assim, uma profecia não dita,
o destino se fará ventríloquo de louco
como santo e devasso, a história triste
num papel qualquer, que nunca existiu.
 

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