sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As escolhas

Enquanto pequeno, lá entre o ideal principesco e as tendências profanas, percebia paulatinamente os prazeres de uma terceira margem. Os corrimãos que davam suporte ao cotidiano etéreo, também me asseguravam a possibilidade de sonhar. Sonhos que pouco se preocupavam com a concretização dos anseios, pois eles satisfaziam a necessidade de sentir-me capaz.

Mas, hora como cavalos a galopar ou uma pena ao ar, as escolhas deram face aos meus sentimentos e os sonhos confundiam os crepúsculos das ilusões. O corpo abundava os sinais das possibilidades, enquanto caracóis de pelos cresciam a insinuar um comprometimento com o tempo.

Não foi em um amanhecer, nem contava os contos dos segundos... simplesmente, foi se formando, pois assim, era certo. E então, aconteceu. Percebi minha escolha em poder escolher. Assumir a dádiva do livre arbítrio. Ser livre, em plenitude. Em êxtase me encontrei.

Mas, a escolha é apenas uma peça do teu quebra cabeça. A peça mestra, contudo não única. Montar o restante do quadro é o caminho escolhido e necessário. Para perceber então que outras peças não mais se encaixam.

Uma busca pelas possibilidades se consolida. A troca faz o quadro ganhar corpo, cada vez mais personalizado. Contudo, ele nunca se completará. Não é essa a intenção. No final, peças faltarão, outras tentarão se encaixar em vão, e alguns serão adaptadas. Como tudo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na esquina do tempo e encontros - Charles Dickens

Foge dos cruéis caminhos da realidade de outrora e cria para si e para o mundo um espaço que, através da fantasia, comenta as convenções sociais. É um menino. Insatisfeito. Busca nas esquinas das possibilidades, tratar os sonhos do reencontro.

E assim, retratos de reconciliações formam. O jovem e o velho. O mundo e o avanço. A monarquia e a plebe. São os laços entre aquilo que os preenchem, uns aos outros. Cabe a nós, donos de mais de 100 anos de tentativas, encontrar as fartas vertentes de um cotidiano de sentimentos passados.

Como uma dança de poderes. Você é Pip. Você se perde não por conta das brumas do inverno, mas pela moralidade vitoriana de ontem e de hoje. Perde a ingenuidade que um dia lhe guiou para enfrentar o medo e oferecer o que comer ao mostro que lhe era o mais atemorizante. Você viu o homem que se vestiu de mostro cruel - sociedade.

Vá! Sobreviva a tudo isso, enfim! Atrás das máscaras você talvez não encontre um pai, mas um amigo. Se não, com grande esperança, um retrato de homem.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Presente de aniversário

Lá está! Plácido, em seus furtivos pensamentos de uma vida inteira de juventude. Um corpo, que como o meu, representa a força da primavera. Inebriados por luz cada canto que lhe é possível, sem deixar de ostentar a sombra, numa pose de certo relaxamento, de certa franqueza de ser quem é.

Ele se despe das vergonhas e deixa a inocência para trás, assim como o lençol branco. São apenas lembranças do passado infantil. O presente nunca foi tão prazeroso.

Da cadeira, antes o local de segurança, como nos braços de uma mãe, precisa apenas de uma ponta do encosto, pois as pernas dele são capazes de sustentar sem esforço e o levar para onde bem queria ir.

É livre! Nas virtudes e temperanças, mas lá está por gosto e escolha... ou comodidade. É jovem, sem nenhuma vulnerabilidade, contudo esconde as partes intimas, não por vergonha ou zelo com os moralistas, pois na verdade, lá posa a valentia do desejo!

Juventude viril! Que atenta no desejo e no segredo, uma busca de quem o quer, mas que alcançará apenas alquilo que o escapa, entre a virilidade em pelos que insistem em fugir do pano que guarda a polpa de ser homem.
Contudo, de todo não há como enganar. Não se trata do retrato de Dorian Gray, mas sim de um rapaz anônimo de história, pois de outro modo não há como ser um desejo atemporal. Desejo somente percebido e vivenciado, pois se compreende no intimo a fugacidade da vida.

Lá, entre os traços que compõe um rosto atípico, encontram-se os sinais do outono, trazendo as brumas e arestas que as frutas terão um gosto diferente. Assim como eu. Mas, como sempre, desejável.